18 de jun de 2013

Ilegal, imoral ou engorda?

O dia amanheceu estranho. Chovia, mas o ar era seco, e apesar da temperatura baixa, o vento estava quente. Um início de dia atípico para uma típica segunda-feira de trabalho.
Semana passada, o Rio de Janeiro, ou melhor, diversas capitais do Brasil, passaram por um momento misterioso. Eu ainda não ouso chama-lo de tomada de consciência, porque até então, nada estava muito claro.

Duas moedas de dez centavos. Esta era a jogada inicial. E na mesa de apostas o valor subiu rapidamente para quatro. A ida e a volta do transporte público ficaram mais caras alguns vinténs. A matemática é básica. O governo subsidiou por anos o preço da passagem, em algum momento ela iria aumentar. Mas parece que o fundamental nunca foi o nosso forte. Faltou arroz, feijão, fubá, ovo, tudo muito fundamental, além de hospitais e ensino de qualidade. E algo começou a me atormentar. É pouca aposta pra muita rodada. Então, subiram os valores e mais jogadores se apresentaram à mesa. Suspense sim, mas nenhum blefe. Era o Rio de Janeiro indo às ruas, mas protestar por sei lá o quê. "Não é pelo preço das passagens", eles diziam. Era pelo quê, então? Não soube dizer. E naquele minuto em que escutava Roberto Carlos dizer-me ao ouvido que "há muito me perdi entre mil filosofias, virei homem calado e até desconfiado, procuro andar direito e ter os pés no chão, mas certas coisas sempre me chamam atenção" olhei pela janela do ônibus, e lá estava escrito numa pilastra "gentileza gera gentileza."

Qual é nosso estado de coisas? Gosto da expressão. Ela nos pede resoluta para pensar. E a grande e única revolução possível é a do pensamento, em cujas armas vorazes - tinta, papel e palavra - confiamos o protagonismo de nossa história, quando individualmente desistimos do consumo deliberado e irrefreável, quando destruímos o "sempre foi assim", ou não repetimos o "eu estou pagando". Onde estávamos nós na história? O que somos agora?

E lá pelas tantas da tarde, quando os pensamentos já haviam voado para além do consciente, atravessei a Avenida Rio Branco esquina com a Avenida Presidente. Era um mar de gente. Muito mais do que poderia esperar. E gentilmente, havia polícia por lá. Eles riam, diziam "quero só ver quem é que vai reclamar quando tirarmos os 'cracudos' das ruas". A pergunta ressoou forte e pesada. Não somos conhecidos pela empatia social, a zona sul que o diga. Mas as camisas brancas eram emblemáticas. Pensei, agora sem versos, que metade daqueles jovens eram apenas entusiastas, menti. Temi quando tremularam bandeiras oportunistas de uma política que mancha nossa trajetória com um analfabetismo grave, diria Brecht. E tive sim, alguma esperança, quando compreendi que muitos que ali estavam "não me representam". Que a pluralidade das reivindicações demonstram o quanto insatisfeitos estamos. Seja com o calçamento de Copacabana, ou com Tia Maria da limpeza e seu salário de pobre. Pouco importava. Era o homem, seu lobo e seu cordeiro.

Por tudo isso não fui às ruas. Senti-me burro, até insensível. Mas, sobretudo, honesto. Não quis me indispor. Minhas armas são outras. Eu as empunho agora. Poucos dirão que do meu quarto, nesta tela de computador é mais fácil. Alguns irão elogiar a disposição das ideias, e muitos não lerão. O que importa, contudo é que minha voz está aqui, sem partido, sem mal entendido ou ponto e vírgula. Está nua e molhada, quebrando barreiras, seguindo viva, renascendo. Foda-se. O que importa é o que escrevo para o amanhã de muitos, pensado por poucos, quantas vezes preciso for, sem telegrama, cassetete ou fogo.

16 de jun de 2013

Eu acredito em virar a página.

O certo, é que nossa história é a simples síntese das nossas decisões e posicionamentos, e, é claro, suas consequências diretas e indiretas. É o resultado da equação indivíduo-tempo. E como nada há de ser eterno neste estado de coisas, a equação sofre com as variáveis que a compõe ao longo da jornada. 

A pieguice do tema, no entanto, não está na concepção da autoajuda, está na reedição, na recorrência, na necessidade de se pensar o óbvio mais uma vez. A pieguice está onde falta bom senso, onde sobram frases feitas. E é nos braços da obviedade, quando nos falta o bom senso, que reinventamos o conceito do virar a página.

Do simples esquecimento ressentido para a lembrança politicamente correta. Virar a página é reflexo do desapego que praticamos ao identificarmos o que nos desrespeita, aquilo que nos incomoda como indivíduos. Nunca foi tão difícil dizer não. Puro, simples. Um não transforma. Muitos nãos transformaram a história. Por que não a nossa? Porque tememos a reação que ele causa. Porque estamos intolerantes, hipócritas e dementes daquilo que o mundo deveria ser. Diante de tantas crises, indispor-se com as opiniões divergentes que encontramos no convívio social parece tão pequeno que nem nos damos conta de que somos, na dimensão micro, o efeito real desses impactos maiores. É a omissão de hoje, tal qual a bolinha de papel que entope o sistema de dragagem quando acumulada às demais, que resulta na vertigem coletiva que sentimos e fingimos não ver. Nos idiotizamos porque é mais bonito. É mais fácil. Então, justificando a Era do gostar de tudo, perseguindo o ideal do cidadão de bem, vemos a crescente resistência ao respeito, porque vivemos a falácia do Procon generalizado. O "eu te processo" no desconforto diário é a crítica ao politicamente incorreto às avessas da opinião verdadeira. A intolerância é a autoafirmação da mesquinhez humana quando, sufocado, o egoísmo se liberta.

Por tanto, virar a página é absolutamente recomendável, natural e salutar. A lembrança é a triagem inicial da memória. Merece ser armazenado, o que, dentro de seu valor arbitrário, tem importância nas páginas de sua história. Uma vez que o conteúdo não atenda aos requisitos da felicidade, da superação ou de qualquer outro valor ou objetivo que lhe sirva de condutor, deve ser ignorado e plenamente esquecido. Mas o processo é maior do que se compreende. É preciso destruir qualquer alternativa de retorno, e isto significa coragem para enfrentá-lo. Porque se as decisões que tomamos são de nossa responsabilidade, não será o tempo que se responsabilizará por elas, muito menos a vida. O que nos falta é a coragem e o discernimento para executar de uma vez os fantasmas que ocupam espaços preciosos na memória. Sem perceber, tornam-se lembranças indesejadas, feridas abertas que florescem sem aviso prévio.


Vire você também as suas páginas. Nosso objetivo principal é a felicidade independente de como a concebemos, e esta só será possível ser plantada na terra fértil da mente, quando arrancarmos de lá as ervas daninhas que impedem seu crescimento.