4 de fev de 2015

O Brasil e a síndrome da bem-nascença

As eleições de 2014 deflagraram um fenômeno jamais antes visto entre os brasileiros. Durante todo o processo em que os partidos políticos deveriam apresentar suas propostas de gestão à população eleitora, o que se viu foi um show de verdades e inverdades, realidades parciais, uma virtualização do confronto de ideias que só fora possível graças ao advento das mídias sociais. A opinião expressa de qualquer jeito, sem cuidado ou parcimônia e com pressa, trouxe uma nova conotação ao direito da liberdade de expressão. A distorção atingiu níveis tão elevados que oportunamente trouxe a bipolarização ao país. De um lado, uma proposta de apelo popular que visa políticas públicas de combate à extrema pobreza e redução das disparidades sociais. De outro, uma proposta de apelo empresarial cuja visão pragmática de gestão vê no capital, mesmo que privado, a solução para os velhos problemas estruturais brasileiros. Contudo, nossa cultura da cordialidade, que nos permite disfarçar posicionamentos políticos, ideológicos, futebolísticos e religiosos foi testada. O muro não era mais feito de tijolos deitados. Ou se caía para um lado ou para o outro. Poucos conseguiram manter-se de pé nesta parede tão frágil, sobrevivendo às pedradas atiradas de ambos os lados.
Diante deste quadro inédito, os brasileiros se exaltaram. Mas o fizeram muito mais pelo desespero de ter de escolher e de ter de manifestar opinião sobre um assunto tão sério que necessariamente pelo que estava em jogo. Viram-se obrigados a expor suas razões e certezas, correndo o risco de serem fortemente julgados por isso, da mesma forma com que postam suas selfies. Era o início da pessoalização da política. O senso de responsabilidade que pesou por sobre os ombros de um povo cujos costumes não apontam para a autogestão, para o empoderamento e o controle social da forma como as democracias almejam, acabou por construir um verdadeiro campo de batalhas. O país se dividiu sim, notadamente entre pobres e ricos. Os ricos, alegando que os pobres são limitados intelectualmente e ignorantes, utilizando-se do saudoso termo (já fora de moda) “massa de manobra” ao referenciá-los como beneficiários de programas sociais que seriam em verdade – outro saudoso termo – “votos de cabresto”. Os pobres, por sua vez, atribuindo as mesmas características aos seus opositores, argumentavam à sua maneira, que dividir riquezas é mesmo um processo doloroso e que hoje podem colocar comida na mesa.

O mais interessante, porém, é notar que em um país cujas disparidades sociais históricas apontam para um percentual muito pequeno de ricos em contraponto a um percentual tão grande de pobres, nem todos os que defendiam os pobres eram tão pobres, e nem todos os que defendiam os ricos eram de fato ricos. Na verdade, o que se observou foi que um grande número de pertencentes à classe média pendeu a balança para os ricos, como se ricos fossem, fazendo com que o resultado desta eleição histórica fosse tão apertado. A este fenômeno chamo de síndrome da bem-nascença.
Sofrem da síndrome todos os recém-empossados da classe média que saídos das universidades públicas foram bem sucedidos na iniciativa privada, todos os cidadãos com dupla cidadania, todos os herdeiros de negócios (ou monopólios) familiares, estudantes de carreira cujas famílias foram capazes de custear seu ensino superior, todos os que se reconhecem no Leblon do Rio de Janeiro ou nos Jardins de São Paulo, mas são moradores de periferias. Estes brasileiros e brasileiras possuem convicções tão profundas sobre quem deveriam ser que negam a história, imaginam realidades, criam supostas verdades e disseminam a intolerância nos mais variados campos, porque tem seus argumentos facilmente combatidos ou não veem sua vontade adolescente sendo reafirmada por todos os que dela discordam. São contra as minorias, mesmo fazendo parte de algumas delas, e sempre que são confrontados com assuntos de extrema relevância social acreditam existir questões mais prementes a serem debatidas como a queda da bolsa ou o preço do dólar, do contrário perdem o interesse no embate e ainda ameaçam a sair do país quando veem seu conforto ser questionado. Acreditam que a justiça se faz com dinheiro e força, que pobres não devem frequentar seus espaços e que a cultura os pertence com exclusividade. Exclusividade que os coloca num patamar acima do "resto", quer seja pelas roupas que vestem ou acessórios que usam, mesmo que seus pais lhes tenham pagado, ou que ainda não tenham quitado as prestações do cartão, tudo, é claro, sem que seja preciso divulgar.

De 1964 a 2002, ou seja, na história recente do Brasil, o povo experimentou governos ou autoritários de direita ou apenas de direita em caráter ensaístico, cuja ideologia embora pautada no desenvolvimento e com bases democráticas desconsiderava o alto preço social a ser pago ou até mesmo a corrupção existente (corrupção aceita tal qual “o jeitinho brasileiro”). O país da “farinha pouca meu pirão primeiro” experimenta, há pouco mais de 10 anos, outra forma de se pensar a política. Sem fazer juízo de valor, é o que é. As bases de cunho social que governam o país nos últimos anos visam uma melhor distribuição de renda, o fim da extrema pobreza e da fome, o acesso aos bens de serviços e consumo, e como qualquer governo que já tenha existido na Terra possui erros e acertos. Obviamente que esta forma de conduzir a política, desagrada a quem gostaria de fazê-la de outra maneira, é perfeitamente natural e aceitável, e por que não dizer, saudável já que em democracias as ideias contrárias deveriam produzir novas soluções – mesmo que híbridas – para os problemas da sociedade.

O que me assusta, pessoalmente, é que diversas pessoas estejam apresentando esta síndrome da bem-nascença justamente no momento em que deveriam preocupar-se com sua participação social, com a contribuição que deveriam dar ao Brasil. Cidadania é mesmo um conceito complexo de se compreender do qual poucos se apropriam, mas me parece a chave para curar os brasileiros de alguns males, em especial este que evidencio.


Das críticas ao governo

Dentre os muitos erros deste governo que aí está encontramos a falta de diálogo com a população, números mal explicados na economia, baixíssimo investimento industrial, balança comercial desfavorável e, consequentemente, crescimento estagnado. Cada um desses problemas possui causas estruturais, internas, e reflexos ou causas externas que nos obrigam a analisar – para uma análise não-isenta, porém mais próxima do real – o contexto internacional e histórico em que se apresentam. Esta análise nos renderia inúmeras páginas e referências bibliográficas em horas de leitura e não é o objetivo deste texto, contudo, não podemos nos furtar de reconhecer que outra gestão traria as marcas históricas de seu partido, suas coligações, características, alinhamento ideológico, traços já conhecidos pelo povo brasileiro cujo extrato social não é de ricos, menos ainda de cidadãos que sofrem da síndrome da bem-nascença. Acreditar então que o governo eleito não poderá ser novamente alvo dessas críticas soa leviandade disfarçada de inocência. Acreditar que um possível novo governo seria diferente do que já demonstrou ao longo da história soa inocência disfarçada de ignorância.