13 de ago de 2013

Outro Silva

Muito antes de Amarildo, houve um Silva. Ele era só mais um, é verdade. E certamente não foi o único.

Em meados de 1990, houve um artista chamado Mc Bob Rum que nos trouxe uma mensagem bastante contundente para a época, lembro-me bem: o funk veio para se enraizar na cultura carioca. Ele não mentiu. Talvez o tenha dito com outras palavras, afinal, lá se vão alguns anos. Visionário, Bob Rum descobriu muito mais que uma tendência musical, mas soube, já naquela época, identificar algo que nos macula até os dias de hoje, a violência.

Ainda nos anos 90, o funk foi associado imediatamente ao "banditismo de favela". Tratava-se de uma expressão realística daquilo que era vivenciado por um grupo social historicamente desfavorecido, os "favelados". Ouso dizer, inclusive, que foram desfavorecidos em tudo. As palavras de ordem gritadas pela classe média carioca, hoje, não são, em absoluto, novidade para este grupo, já que eles sequer conhecem o significado de palavras como saúde, igualdade e respeito. Naquela época, a favela foi tratada como um câncer, um tumor. Elas então cresceram, em meio à cidade do Rio de Janeiro, na medida em que foram irrigadas pelas múltiplas necessidades que sempre lhe foram características, a começar por saneamento. Imagine que em um solo pobre, o que se planta nasce com dificuldade já que as ervas daninhas, resistentes, encontram meios para sobreviver e roubar os parcos nutrientes. É desta analogia igualmente pobre que constato o crescimento do ilícito e do ilegal nas favelas do Rio. Um lugar onde o estado não chega. Um lugar em que há medo, desconfiança e talvez alguma vergonha. Pólvora e chama postas lado a lado. Então, a miopia de nosso Estado preferiu que eles ficassem lá.

No decorrer desta mesma década, o funk denunciou a violência gratuita e a proliferação de poderes paralelos, bem como facções criminosas. O Rap do Silva foi somente uma das composições. Entretanto, a dita elite carioca, de tanto olhar para o próprio umbigo, foi incapaz de fazer a análise do discurso por detrás da imoralidade do que era o "proibidão". Era, por tanto, uma análise de cenário, feita com o melhor olhar dos representantes daquela cultura, daquele povo - que mais parece outro quando se olha para o Leblon - e nos mesmos moldes daquilo que se produziu no Regime Militar Brasileiro. Houve então a criminalização da pobreza, bem como o Regime criminalizou a arte. Tínhamos funk às escondidas. Hoje, temos os Silvas escondidos.

Nesses últimos 20 anos, passamos por diversas transformações, culturais, inclusive. Investimentos banharam de loja algumas regiões da cidade, e embora não sejamos mais a geração do É O Tchan, seguiremos segurando o conservadorismo puritano de apreciar o imoral pelas exceções, permitindo que exista o popularesco como atração de circo ao invés de fomentar melhores condições para o ensino de base; Danificando o entretenimento ao fazer rir da desgraça comum quando o que deveria ser exposto ao ridículo são os hábitos da classe A. O tempo fluiu e enquanto aumentamos os muros de nossa indiferença, fomos nos afundando em nossos condomínios, de luxo ou não. Em 1999, Falcão, do Rappa, lança a pergunta: não somos nós os prisioneiros? Nossa alma estava armada, porém sem motivação. Calamos porque hoje é mais fácil desafiar o mundo sem sair de casa.

Ocorre que hoje, a violência aparente é outra. Não é mais gratuita. Não temos mais a banheira do Gugu nas tardes familiares de domingo. Essa violência assemelha-se a um poder absoluto e irrefutável. Está nas mãos de conglomerados, instituições. O mesmo poder que decide o destino de um cidadão, define o roteiro da novela às 21 horas. Ele desconsidera os meios, antevê somente o fim. Do fim, todos nós, fracos, sabemos muito bem. Ele começa como uma verdade que se prova mentira e termina, antes do ponto final, com uma mentira se passando por verdade.


"Era um só Amarildo, cuja estrela não brilha, ele era pedreiro e era pai de família."