15 de abr de 2016

A censura silenciosa da não-consciência

Em tempos de complexidade política para uma sociedade jovem e desinteressada destas questões, o milagre da multiplicação de verdades, bandeiras políticas hasteadas em retrocesso e cientistas políticos pareceria alarmante não fossem os artifícios científicos das ciências humanas que estudam tais fenômenos dentro das mais variadas áreas que compõe seu conhecimento, seus saberes.
O "como chegamos a este ponto" é, talvez, o ponto mais importante de todo o processo que se descortina diante dos fatos subsequentes. Poderíamos abordar a questão de óticas variadas, até mesmo pelo contraponto, mas o referencial teórico sério é evidentemente favorável à abordagem crítica (etimológica) do momento em que estamos inseridos.
O posicionamento inflamado e extremista vislumbrado atualmente, no Brasil, não indica um movimento de apreciação do cenário político, de interesse pela matéria, muito pelo contrário. Indica que as ferramentas utilizadas pelo Poder se aperfeiçoaram, quando denotadas as redes de articulação virtual. Chamamos de "redes sociais" sustentados pela falácia da livre interação, da anarquia do sistema. Engana-se aquele que nunca tivera um post cerceado pela equipe proletária que executa as ordens de seu patrão, que do topo da pirâmide garante a sensação de anarquia e ainda, disfarça que dentro de seu produto o império é evidentemente dele. A rede termina por social, pois é uma sociedade inteira contida em si mesma. Possui organicidade e dinamicidade, e, por esta razão nos desperta interesse influenciando de maneira irrefreável as discussões sobre os temas de sua Agenda.
A mídia, então, financiada pelo capital utiliza-se destas ferramentas em defesa do status quo e o fato não é novidade. Ameaça-se a ordem e lá estarão os paladinos da manutenção do sistema. O apoio da mediocridade também será, por excelência, imediato e contundente como bem preconiza o princípio que os rege na cadeia de dominação, são pois, os comandados, reféns, os que nada concluem, os repetidores, os que fazem a roda girar por serem engrenagem sem se dar conta.
Neste cenário virtual donde se observa o mimetismo do real, sem ser arte, em que imagens representam felicidade e revelam o vazio contíguo dos seres humanos, observamos a censura silenciosa da não-consciência quando ao optar pela não-manifestação de posicionamento e criticidade, o cidadão virtual assume para si uma estratégia. Ela poderia ser chamada de inconsciente não fosse o fato dessa escolha querer parecer inconsciente. As razões são múltiplas. O desconforto do confronto infrutífero, a tentativa de se abster do constrangimento em relação ao outro, a preservação das relações assépticas. Mais uma vez, a manutenção do sistema. Logo, faz mais sentido falar da não-consciência para figurar a motivação por detrás da escolha, que culmina na censura silenciosa que se alastra nos mesmos meios cibernéticos como resultado da banalização imposta pelos meios de comunicação de massa.
A evidência do "like" é muito mais reveladora de caráter para o outro que uma longa conversa sobre convicções e afetos. É a manifestação de instintos básicos de sobrevivência que mudam de meio, mas permanecem mensagem.
A censura silenciosa da não-consciência, por tanto, é a escolha fundamental da mediocridade quando os meios de comunicação financiados pelo capital banalizam um tema de sua Agenda estendendo suas reflexões às redes sociais, fazendo com que a maior parte deste grupo busque no entretenimento e no consumo, os elos de interlocução e identidade social para amenizar o estresse social, sua tensão nos espaços de conflito. A censura relatada faz por restringir os embates às elites (intelectual e econômica, por vezes antagônicas) e à classe média, que se vislumbra emergente diante da possibilidade de contribuir com a tomada de decisão do topo da pirâmide social baseada no seu poder de compra como uma grande força uniforme, homogênea. O resto é publicidade.
Se o silêncio do outro nos perturbar a paz, então, tenha em mente que sua escolha deliberada pela censura silenciosa da não-consciência buscava contudo, evitar o constrangimento de discordar de você, não por ser superior, mas por não possuir subsídios para sustentar uma conversa que embora ele não desconheça por completo, fora contada a ele por uma única fonte, uma única versão, talvez. Somente talvez...

O dito e o não

Nas sombras de um dia
Aos olhos de um outro,
Arrastam-se os nãos
Enquanto gira uma vida.
Afogam-se as alegrias
E tudo o que se haja feito
Torna-se por hábito
O que não tem sentido
O que não faz amigo
O que não tem retrato
O que se põe sozinho
O infeliz desabafo
Das escadas o desafio
O raiar de sol que aguardo
O abraço nunca sofrido
Distante, a um braço
Daquilo que quero comigo
Do que a vida tem por destino
No papel só um traço
Que danço chorando e sorrindo
Mas que bebo em ardor o bagaço
Cedo ou tarde, vindo ou partindo
Rasgo do peito dorido
A felicidade arregaço.