O semáforo. Um risco.
Na pulsante trajetória
O aço. O poste, um bicho.
Enluarada a chama
A noite molha a grama, o traço
Um rio me faço, sou eu!
Diante do sim.
Nas águas, a um passo
Sem roupas faz frio aqui.
Não te vejo, não há ninguém.
Sou flora. Sou fauna, amor.
Sou pronome, sou quem
E nada há além de mim.
Mergulho. À sorte, entregue,
Malte e embriaguez.
Sem sorriso branco,
Sem pés, tu que és nudez
Cala minha sina. Não negue
meu fôlego assim.
O sangue na estrada
enfeita o tu, que sou eu
Que abranda. Que seca.
Que é nada. E no pesadelo
da vida, mais tira que afaga
Corta o juízo, me encerra.
Afoga. Regenera. Me encanta.
Ouço sirenes... sereias.
Este é meu rosto. Meu universo
Eu texto, testo. Mais um verso.
Estilhaço e fim.
3 de jul. de 2017
20 de jun. de 2017
Cena póstuma
Esse olhar, essa cascata,
É corpo.
É leve.
E me grita
Um universo todo nosso
Um caminho, uma roça
Uma rima.
Que há de colorir nosso sorriso
de clamar pela chama
Anuviar o pensamento,
de bater no coração de quem ama.
E se no brilho das estrelas nos vejo,
Se no cair da noite lhe abraço,
Se há dança em mim, um desejo
É pelo tempero pelo gosto do afago
Que é o nó da garganta o casaco
No passo da lama, é Frida
No silêncio do quarto me calo
Desenhando o amanhecer de mais um dia
Que se eterniza ao findar comigo
Na morte ao chão, num lago ou piscina
A revelar o novo, o pesar, um descanso
Trazer ao começo, outra sina.
É quando toca o sino que "eu te agradeço"
Quando limpo a alma que sinto no corpo
Ouço em você o meu choro
Nos faço uma bossa, padeço
Pra cantar contigo de novo e de novo...
Mas pra descer à vida vazia
So tenho a fazer um pedido
Não me deixes
Some comigo
Se meu imã.
E se o mundo então nos unir
A palavra rasgar, sangrar ferida
Me toma em teus braços
Me erga, me lance, me afunde em ti
Porque se no palco é à vera é amor
O meu ensaio dolorido é na vida.
É corpo.
É leve.
E me grita
Um universo todo nosso
Um caminho, uma roça
Uma rima.
Que há de colorir nosso sorriso
de clamar pela chama
Anuviar o pensamento,
de bater no coração de quem ama.
E se no brilho das estrelas nos vejo,
Se no cair da noite lhe abraço,
Se há dança em mim, um desejo
É pelo tempero pelo gosto do afago
Que é o nó da garganta o casaco
No passo da lama, é Frida
No silêncio do quarto me calo
Desenhando o amanhecer de mais um dia
Que se eterniza ao findar comigo
Na morte ao chão, num lago ou piscina
A revelar o novo, o pesar, um descanso
Trazer ao começo, outra sina.
É quando toca o sino que "eu te agradeço"
Quando limpo a alma que sinto no corpo
Ouço em você o meu choro
Nos faço uma bossa, padeço
Pra cantar contigo de novo e de novo...
Mas pra descer à vida vazia
So tenho a fazer um pedido
Não me deixes
Some comigo
Se meu imã.
E se o mundo então nos unir
A palavra rasgar, sangrar ferida
Me toma em teus braços
Me erga, me lance, me afunde em ti
Porque se no palco é à vera é amor
O meu ensaio dolorido é na vida.
26 de mai. de 2017
Eu
Pra tudo o que toco,
Que vejo,
Existe um punhado,
Um lampejo
Do que resta da alma
Tardiamente
É desejo,
Dos que molham os sonhos da gente.
Que vejo,
Existe um punhado,
Um lampejo
Do que resta da alma
Tardiamente
É desejo,
Dos que molham os sonhos da gente.
16 de abr. de 2017
Carta a um desconhecido.
Oi. Meu nome é Bruno F., e apesar de ja ter tido outros nomes, este é um dos que mais me agrada. Tenho 34 anos. Sou ator, poeta, instrutor de idiomas, às vezes servidor público, mas jornalista com certeza, e embora não me sinta tanto, humano também. (Rsrs) Minhas especializações são em cultura e política internacional, mas nem sempre foi assim. O Rio de Janeiro e suas paisagens me motivaram a construir este caminho, sabe. É tudo parte de um quadro. Como daqueles que vislumbro deitado em minha cama olhando pra janela... É bem isso. Eu consegui transpor para o meu quarto elementos inconscientes de minha cidade. Sempre esteve tudo ligado. Desde o contraste das tintas na parede à espada que guardo dos tempos de arte marcial quando fui atleta. Ah, esqueci de mencionar esta parte. Vou tornar as coisas mais lineares.
Imagine que alguém pode acordar e ver, diante de si, do alto de uma daquelas camas de viúvo, cujas medidas não são tão curtas quanto as de solteiro, nem tão grandes que te façam sentir a solidão que um viúvo deve sentir por ter sido arrancado dele um grande amor, uma cama na medida da saudade, a cidade. Na cama, um indivíduo. Este sou eu. Ao abrir os olhos na direção da janela, de duas abas internas de madeira e vidros abertas, com outras duas de ripas de madeira, externas, fechadas, tudo o que se vê é a luz do dia atravessando timidamente as frestas enquanto a parede de tinta azul me observa silenciosamente. De maneira curiosa ela tem dois tons de azul. Uma chuva forte de verão, chuvas sinceras, das que carregadas de pingos grosseiros e rajadas de vento revelam os defeitos em qualquer construção, adentraram meu quarto. Eu senti a natureza e sua delicadeza. Era como um chamado de pertencimento. - Aqui, na cidade maravilhosa o clima é quente, mas dependendo de onde se esteja, ameno. Agradável. Nos tempos de calor eu nunca me sinto confortável, mas nos dias mais frios me conformo. - Essa chuva fez que eu precisasse fazer um pequeno reparo na janela e na parede, mas eu não tinha mais a cor aplicada anteriormente, então usei outro azul na metade inferior da parede. (Rsrs) Não ficou tão ruim, prometo, mas eu tenho desde então uma parede azul em dois tons que são exatamente como a discrepância que existe entre a zona sul de minha cidade e as zonas outras, numa das quais eu resido. Minha casa é bastante confortável, é verdade. Não posso reclamar. Mas em nada ela se assemelha aos apartamentos de mais de milhões de reais de Ipanema, por exemplo. E essa distorção de tintas está entre as pessoas. Sua pigmentação não diz sobre elas o que verdade alguma poderia contestar. E no Rio a obviedade do preconceito é tão velada quanto são os urubus orixás devorando suas oferendas. Os jornais, as revistas, as histórias do cotidiano contam o que se vende, idéias. A verdade está em todo o restante que não se escreve. E por isso me tornei jornalista. Mas poeta foi antes, porque essa dor, essa utopia já me ganhava desde os primeiros dias de amores infantis na escola. Respirava poesia e ela me possuía de tal forma que a inspiração não era minha, mas do outro. Do ar ao redor. Da saidinha às lojas de departamentos no recreio. Dos ônibus lotados em pleno calor de 40. O caos do Rio me fez poeta antes de jornalista. E se pra toda cena de beleza na orla ou cada espaço de invisibilidade no centro existe um autor, me fiz ator. A pluralidade de indivíduos, e culturas, e situações fazem dessa cidade confusa capital do desajeito. As favelas que se construíram ao redor do dinheiro. A ferrovia que corta na carne a vida de todo trabalhador. Não existe cenário mais diverso e bonito. Toda vez que passo por uma favela vejo o pulsar de seu cerne. A vida que ela respira. Não pelas pessoas, mas sua arquitetura. A favela está viva. Os homens são só microorganismos. Ela cresce e se expande de acordo com a necessidade de sobrevivência e toma espaço. E quando olho pro canto onde tenho meu computador, vejo a favela de cadernos e blocos de escrita com pensamentos tão diversos que não fossem celulose animada por tinta falariam de suas verdades à vizinhança.
Mas enquanto os anticorpos da favela lutam contra os do asfalto, o por do sol do Arpoador permanece. E porque é tão lindo e íntimo, guardo numa das paredes do meu quarto, justamente na oposta à janela, uma pintura. O por do sol para onde já me transportei inúmeras vezes. Ele é tão real e bem vindo que na falta de um através da janela, me contento com ele. Assim. Imaginário mesmo. Assim é o Rio de Janeiro. Imaginário. Por novelas e filmes e publicidade. Nada por aqui é Copacabana a não ser ela mesma. A pobreza não reside no Leblon. Mas o carioca é povo bravio. Na areia da praia somos todos biscoito Globo, mate gelado e futebol.
O Rio de Janeiro não é minha cidade favorita. É meu berço. Onde vivo. Onde nasci. Talvez, como toda criança que cresce eu já tenha conhecido outros lugares e descoberto meus gostos. E como todo filho pródigo retornado a este lugar. Retornado ao meu quarto de onde vejo favelas, desigualdades, violência e insegurança. De onde respiro o amor intenso e a beleza de um por do sol. É aqui que absorvo a energia para viver mais e mais uma vez ser poeta por onde passar.
Tome o Rio como um sorvete. Doce, gelado e molhado. A sensação é maravilhosa por quanto ele não derreter. Ele vai te exigir pressa para aproveitar tudo o que pode oferecer antes de te forçar a lavar as mãos.
Imagine que alguém pode acordar e ver, diante de si, do alto de uma daquelas camas de viúvo, cujas medidas não são tão curtas quanto as de solteiro, nem tão grandes que te façam sentir a solidão que um viúvo deve sentir por ter sido arrancado dele um grande amor, uma cama na medida da saudade, a cidade. Na cama, um indivíduo. Este sou eu. Ao abrir os olhos na direção da janela, de duas abas internas de madeira e vidros abertas, com outras duas de ripas de madeira, externas, fechadas, tudo o que se vê é a luz do dia atravessando timidamente as frestas enquanto a parede de tinta azul me observa silenciosamente. De maneira curiosa ela tem dois tons de azul. Uma chuva forte de verão, chuvas sinceras, das que carregadas de pingos grosseiros e rajadas de vento revelam os defeitos em qualquer construção, adentraram meu quarto. Eu senti a natureza e sua delicadeza. Era como um chamado de pertencimento. - Aqui, na cidade maravilhosa o clima é quente, mas dependendo de onde se esteja, ameno. Agradável. Nos tempos de calor eu nunca me sinto confortável, mas nos dias mais frios me conformo. - Essa chuva fez que eu precisasse fazer um pequeno reparo na janela e na parede, mas eu não tinha mais a cor aplicada anteriormente, então usei outro azul na metade inferior da parede. (Rsrs) Não ficou tão ruim, prometo, mas eu tenho desde então uma parede azul em dois tons que são exatamente como a discrepância que existe entre a zona sul de minha cidade e as zonas outras, numa das quais eu resido. Minha casa é bastante confortável, é verdade. Não posso reclamar. Mas em nada ela se assemelha aos apartamentos de mais de milhões de reais de Ipanema, por exemplo. E essa distorção de tintas está entre as pessoas. Sua pigmentação não diz sobre elas o que verdade alguma poderia contestar. E no Rio a obviedade do preconceito é tão velada quanto são os urubus orixás devorando suas oferendas. Os jornais, as revistas, as histórias do cotidiano contam o que se vende, idéias. A verdade está em todo o restante que não se escreve. E por isso me tornei jornalista. Mas poeta foi antes, porque essa dor, essa utopia já me ganhava desde os primeiros dias de amores infantis na escola. Respirava poesia e ela me possuía de tal forma que a inspiração não era minha, mas do outro. Do ar ao redor. Da saidinha às lojas de departamentos no recreio. Dos ônibus lotados em pleno calor de 40. O caos do Rio me fez poeta antes de jornalista. E se pra toda cena de beleza na orla ou cada espaço de invisibilidade no centro existe um autor, me fiz ator. A pluralidade de indivíduos, e culturas, e situações fazem dessa cidade confusa capital do desajeito. As favelas que se construíram ao redor do dinheiro. A ferrovia que corta na carne a vida de todo trabalhador. Não existe cenário mais diverso e bonito. Toda vez que passo por uma favela vejo o pulsar de seu cerne. A vida que ela respira. Não pelas pessoas, mas sua arquitetura. A favela está viva. Os homens são só microorganismos. Ela cresce e se expande de acordo com a necessidade de sobrevivência e toma espaço. E quando olho pro canto onde tenho meu computador, vejo a favela de cadernos e blocos de escrita com pensamentos tão diversos que não fossem celulose animada por tinta falariam de suas verdades à vizinhança.
Mas enquanto os anticorpos da favela lutam contra os do asfalto, o por do sol do Arpoador permanece. E porque é tão lindo e íntimo, guardo numa das paredes do meu quarto, justamente na oposta à janela, uma pintura. O por do sol para onde já me transportei inúmeras vezes. Ele é tão real e bem vindo que na falta de um através da janela, me contento com ele. Assim. Imaginário mesmo. Assim é o Rio de Janeiro. Imaginário. Por novelas e filmes e publicidade. Nada por aqui é Copacabana a não ser ela mesma. A pobreza não reside no Leblon. Mas o carioca é povo bravio. Na areia da praia somos todos biscoito Globo, mate gelado e futebol.
O Rio de Janeiro não é minha cidade favorita. É meu berço. Onde vivo. Onde nasci. Talvez, como toda criança que cresce eu já tenha conhecido outros lugares e descoberto meus gostos. E como todo filho pródigo retornado a este lugar. Retornado ao meu quarto de onde vejo favelas, desigualdades, violência e insegurança. De onde respiro o amor intenso e a beleza de um por do sol. É aqui que absorvo a energia para viver mais e mais uma vez ser poeta por onde passar.
Tome o Rio como um sorvete. Doce, gelado e molhado. A sensação é maravilhosa por quanto ele não derreter. Ele vai te exigir pressa para aproveitar tudo o que pode oferecer antes de te forçar a lavar as mãos.
6 de jan. de 2017
Música
Esse pulsar, esse gemido
É como um feixe de luz aturdido
Pela maciez da pele mais tenra,
Pela tranquilidade amena dos beijos teus.
É o texto escrito na veia
Sem palavras capazes de o despertar,
Nem viagens, nenhum outro amor
Ao castigo óbvio que não desejo sofrer.
O corpo dança de letra vazia
Porque movimento nenhum me espanta
Quando a música toca tardia
Na madrugada, no banho, não adianta
Me toma por dentro e rasga, recria
O que antes não havia e hoje me encanta.
É como um feixe de luz aturdido
Pela maciez da pele mais tenra,
Pela tranquilidade amena dos beijos teus.
É o texto escrito na veia
Sem palavras capazes de o despertar,
Nem viagens, nenhum outro amor
Ao castigo óbvio que não desejo sofrer.
O corpo dança de letra vazia
Porque movimento nenhum me espanta
Quando a música toca tardia
Na madrugada, no banho, não adianta
Me toma por dentro e rasga, recria
O que antes não havia e hoje me encanta.
28 de dez. de 2016
Abuso
Ressoa por dentro de mim o sentido,
um eco de um outro eu.
Que remonta, restaura o motivo
A partir de tudo o que se perdeu.
E são nulos os descaminhos
De vidas, artérias... e noites de fim.
Sem registro, nem horas, suspiros tardios
No suor do sexo, gemidos de sim.
Porque se estou por completo
Sinto a verdade derradeira
Da memória a fagulha, a centelha
Que me dirige ao futuro concreto
Donde bebo do pulsar incerto
Neste espaço, o gozo de uma vida inteira.
um eco de um outro eu.
Que remonta, restaura o motivo
A partir de tudo o que se perdeu.
E são nulos os descaminhos
De vidas, artérias... e noites de fim.
Sem registro, nem horas, suspiros tardios
No suor do sexo, gemidos de sim.
Porque se estou por completo
Sinto a verdade derradeira
Da memória a fagulha, a centelha
Que me dirige ao futuro concreto
Donde bebo do pulsar incerto
Neste espaço, o gozo de uma vida inteira.
8 de dez. de 2016
No que insisto
Não espero canções,
Nem abrigos.
O descanso é póstumo
Em rabiscos vazios,
Numa cama desfeita,
A ilustração perfeita do ser.
Não existem versões,
Nem castigos.
Esqueça os pecados,
Detalhes lascivos,
A visão é estreita,
A quem se quer poder ver.
É no estilhaço da fome
No fragmento da alma
Na paixão aturdida do homem
Que mora o poeta.
No desespero da sina,
No silêncio do acaso
Maqueia voraz sua trama.
Mas na voz ferida
Teme o cansaço
Do avesso do espelho
No contrário do beijo
A imagem fria do quarto.
E é sem perceber,
Que se concebe à vida
Um lugar a que pertença
Em palavras imensas
Ou no coração de quem ama.
Mas se morre o poeta
E não chega seu fim,
Liberta-se o tempo,
É no que insisto, o que invento
O sonho é tudo pra mim.
Nem abrigos.
O descanso é póstumo
Em rabiscos vazios,
Numa cama desfeita,
A ilustração perfeita do ser.
Não existem versões,
Nem castigos.
Esqueça os pecados,
Detalhes lascivos,
A visão é estreita,
A quem se quer poder ver.
É no estilhaço da fome
No fragmento da alma
Na paixão aturdida do homem
Que mora o poeta.
No desespero da sina,
No silêncio do acaso
Maqueia voraz sua trama.
Mas na voz ferida
Teme o cansaço
Do avesso do espelho
No contrário do beijo
A imagem fria do quarto.
E é sem perceber,
Que se concebe à vida
Um lugar a que pertença
Em palavras imensas
Ou no coração de quem ama.
Mas se morre o poeta
E não chega seu fim,
Liberta-se o tempo,
É no que insisto, o que invento
O sonho é tudo pra mim.
25 de ago. de 2016
Insônia
O abismo é célere.
Não há tempo.
Nele o som se perde
O silêncio que aguento
É o princípio, um retrocesso
Ao início do fim pelo avesso
De um lugar sem fim
Nem começo
De onde vejo a luz
Pelo inverso.
Não há tempo.
Nele o som se perde
O silêncio que aguento
É o princípio, um retrocesso
Ao início do fim pelo avesso
De um lugar sem fim
Nem começo
De onde vejo a luz
Pelo inverso.
25 de jul. de 2016
Carioca de Janeiro
Enquanto o sol brilhar
uma praia
Enquanto o asfalto queima
um par de pés descalços
Enquanto a dor durar
uma bala
Perdida a quem quiser um amor
duzentos contos.
Pra toda vez um samba
a tocar um sorriso
Pra todo fim de tarde
o aplauso
O horizonte pra se amar
paraíso
Pra toda confusão
uma favela e um causo.
No trem que corta o subúrbio
Suor, calor e água a um e cinquenta
Na avenida que abrasiléira
engarrafado por duas horas
Na voz que grita sozinha
pode ser praça, e Saens Pena
No abrigo que alimenta e suporta
uma rua a chamar de nossa
Se num balanço de quadril
na marquise é puta
Se num abraço de afeto
no viado é porrada
Se nunca antes na vida
é bróder de estrada
Se numa cidade falida
é exclusiva, única.
Se é carioca,
o lado importa a poucos
O iPhone de uns
É sempre o nada de outros.
uma praia
Enquanto o asfalto queima
um par de pés descalços
Enquanto a dor durar
uma bala
Perdida a quem quiser um amor
duzentos contos.
Pra toda vez um samba
a tocar um sorriso
Pra todo fim de tarde
o aplauso
O horizonte pra se amar
paraíso
Pra toda confusão
uma favela e um causo.
No trem que corta o subúrbio
Suor, calor e água a um e cinquenta
Na avenida que abrasiléira
engarrafado por duas horas
Na voz que grita sozinha
pode ser praça, e Saens Pena
No abrigo que alimenta e suporta
uma rua a chamar de nossa
Se num balanço de quadril
na marquise é puta
Se num abraço de afeto
no viado é porrada
Se nunca antes na vida
é bróder de estrada
Se numa cidade falida
é exclusiva, única.
Se é carioca,
o lado importa a poucos
O iPhone de uns
É sempre o nada de outros.
13 de jul. de 2016
Nu
Despir-se é lento
Como encostar a navalha morna
Como abrir os olhos
Beber água gelada
Caminhar na areia molhada
É distinguir entre uma coisa e outra
Uma temperatura nova
Uma textura
É uma volta de relógio
O ponteiro não importa.
Como encostar a navalha morna
Como abrir os olhos
Beber água gelada
Caminhar na areia molhada
É distinguir entre uma coisa e outra
Uma temperatura nova
Uma textura
É uma volta de relógio
O ponteiro não importa.
6 de jul. de 2016
Desesperança torcida
Hoje, ela não me reconheceu. Sempre que passava pela rua de Dona Gê ela me acenava de forma vivaz. Jota, seu neto, foi amigo de infância, daqueles que disputavam a bola "dente-de-leite" no campinho rala coco da rua de baixo. Sempre muito entusiasmada, Dona Gê parava em algumas ruas do bairro e se punha a conversar nos portões dos vizinhos os assuntos mais diversos. Na maior parte do tempo o tema era a vida de alguém. O carro novo, casamentos, brigas, o que mais pudesse ser alvo de seus comentários. Quando conheci Dona Gê, ela já tinha cabelos brancos. Tantos, que não havia tinta que desse jeito. Depois de 30 anos passando por sua casa, quase todas as noites, tornou-se hábito o aceno, um "Como é que vão as coisas?", um "Seguem muito bem, obrigado!" e às vezes apenas o meio sorriso de ambos junto do aceno. A cada ano acompanhei Dona Gê no quintal de sua casa. Quase sempre o estava lavando ou varrendo. Até que em um belo dia a vi sentada. Vê-la sentada tornou-se mais comum. O aceno nunca faltava. O "olá, vizinho" nunca lhe faltava. Depois ela passou a esticar-se na cadeira, na tentativa que eu passasse, mas não fingisse não vê-la. Eu sempre a notei, sempre. O pescoço curtinho naquele corpo de estatura muito baixa. Ela nunca deve ter passado dos 1,60. Mas hoje, Dona Gê, num esforço sobre humano, a julgar pela maneira com que franziu sua testa marcada pelo tempo, não me viu. Talvez não tenha me notado. Ainda há pouco ela não dizia mais nada. Apenas acenava. Seu sorriso se apagou no tempo. Mas o aceno... aquele aceno hoje fez falta. Dona Gê não me reconheceu. O fim de dia tornou-se vazio. Essa é a vida. Um punhado de efemeridade, coisas que fomos... esquecidas, por aí...
15 de abr. de 2016
A censura silenciosa da não-consciência
Em tempos de complexidade política para uma sociedade jovem e desinteressada destas questões, o milagre da multiplicação de verdades, bandeiras políticas hasteadas em retrocesso e cientistas políticos pareceria alarmante não fossem os artifícios científicos das ciências humanas que estudam tais fenômenos dentro das mais variadas áreas que compõe seu conhecimento, seus saberes.
O "como chegamos a este ponto" é, talvez, o ponto mais importante de todo o processo que se descortina diante dos fatos subsequentes. Poderíamos abordar a questão de óticas variadas, até mesmo pelo contraponto, mas o referencial teórico sério é evidentemente favorável à abordagem crítica (etimológica) do momento em que estamos inseridos.
O posicionamento inflamado e extremista vislumbrado atualmente, no Brasil, não indica um movimento de apreciação do cenário político, de interesse pela matéria, muito pelo contrário. Indica que as ferramentas utilizadas pelo Poder se aperfeiçoaram, quando denotadas as redes de articulação virtual. Chamamos de "redes sociais" sustentados pela falácia da livre interação, da anarquia do sistema. Engana-se aquele que nunca tivera um post cerceado pela equipe proletária que executa as ordens de seu patrão, que do topo da pirâmide garante a sensação de anarquia e ainda, disfarça que dentro de seu produto o império é evidentemente dele. A rede termina por social, pois é uma sociedade inteira contida em si mesma. Possui organicidade e dinamicidade, e, por esta razão nos desperta interesse influenciando de maneira irrefreável as discussões sobre os temas de sua Agenda.
A mídia, então, financiada pelo capital utiliza-se destas ferramentas em defesa do status quo e o fato não é novidade. Ameaça-se a ordem e lá estarão os paladinos da manutenção do sistema. O apoio da mediocridade também será, por excelência, imediato e contundente como bem preconiza o princípio que os rege na cadeia de dominação, são pois, os comandados, reféns, os que nada concluem, os repetidores, os que fazem a roda girar por serem engrenagem sem se dar conta.
Neste cenário virtual donde se observa o mimetismo do real, sem ser arte, em que imagens representam felicidade e revelam o vazio contíguo dos seres humanos, observamos a censura silenciosa da não-consciência quando ao optar pela não-manifestação de posicionamento e criticidade, o cidadão virtual assume para si uma estratégia. Ela poderia ser chamada de inconsciente não fosse o fato dessa escolha querer parecer inconsciente. As razões são múltiplas. O desconforto do confronto infrutífero, a tentativa de se abster do constrangimento em relação ao outro, a preservação das relações assépticas. Mais uma vez, a manutenção do sistema. Logo, faz mais sentido falar da não-consciência para figurar a motivação por detrás da escolha, que culmina na censura silenciosa que se alastra nos mesmos meios cibernéticos como resultado da banalização imposta pelos meios de comunicação de massa.
A evidência do "like" é muito mais reveladora de caráter para o outro que uma longa conversa sobre convicções e afetos. É a manifestação de instintos básicos de sobrevivência que mudam de meio, mas permanecem mensagem.
A censura silenciosa da não-consciência, por tanto, é a escolha fundamental da mediocridade quando os meios de comunicação financiados pelo capital banalizam um tema de sua Agenda estendendo suas reflexões às redes sociais, fazendo com que a maior parte deste grupo busque no entretenimento e no consumo, os elos de interlocução e identidade social para amenizar o estresse social, sua tensão nos espaços de conflito. A censura relatada faz por restringir os embates às elites (intelectual e econômica, por vezes antagônicas) e à classe média, que se vislumbra emergente diante da possibilidade de contribuir com a tomada de decisão do topo da pirâmide social baseada no seu poder de compra como uma grande força uniforme, homogênea. O resto é publicidade.
Se o silêncio do outro nos perturbar a paz, então, tenha em mente que sua escolha deliberada pela censura silenciosa da não-consciência buscava contudo, evitar o constrangimento de discordar de você, não por ser superior, mas por não possuir subsídios para sustentar uma conversa que embora ele não desconheça por completo, fora contada a ele por uma única fonte, uma única versão, talvez. Somente talvez...
O "como chegamos a este ponto" é, talvez, o ponto mais importante de todo o processo que se descortina diante dos fatos subsequentes. Poderíamos abordar a questão de óticas variadas, até mesmo pelo contraponto, mas o referencial teórico sério é evidentemente favorável à abordagem crítica (etimológica) do momento em que estamos inseridos.
O posicionamento inflamado e extremista vislumbrado atualmente, no Brasil, não indica um movimento de apreciação do cenário político, de interesse pela matéria, muito pelo contrário. Indica que as ferramentas utilizadas pelo Poder se aperfeiçoaram, quando denotadas as redes de articulação virtual. Chamamos de "redes sociais" sustentados pela falácia da livre interação, da anarquia do sistema. Engana-se aquele que nunca tivera um post cerceado pela equipe proletária que executa as ordens de seu patrão, que do topo da pirâmide garante a sensação de anarquia e ainda, disfarça que dentro de seu produto o império é evidentemente dele. A rede termina por social, pois é uma sociedade inteira contida em si mesma. Possui organicidade e dinamicidade, e, por esta razão nos desperta interesse influenciando de maneira irrefreável as discussões sobre os temas de sua Agenda.
A mídia, então, financiada pelo capital utiliza-se destas ferramentas em defesa do status quo e o fato não é novidade. Ameaça-se a ordem e lá estarão os paladinos da manutenção do sistema. O apoio da mediocridade também será, por excelência, imediato e contundente como bem preconiza o princípio que os rege na cadeia de dominação, são pois, os comandados, reféns, os que nada concluem, os repetidores, os que fazem a roda girar por serem engrenagem sem se dar conta.
Neste cenário virtual donde se observa o mimetismo do real, sem ser arte, em que imagens representam felicidade e revelam o vazio contíguo dos seres humanos, observamos a censura silenciosa da não-consciência quando ao optar pela não-manifestação de posicionamento e criticidade, o cidadão virtual assume para si uma estratégia. Ela poderia ser chamada de inconsciente não fosse o fato dessa escolha querer parecer inconsciente. As razões são múltiplas. O desconforto do confronto infrutífero, a tentativa de se abster do constrangimento em relação ao outro, a preservação das relações assépticas. Mais uma vez, a manutenção do sistema. Logo, faz mais sentido falar da não-consciência para figurar a motivação por detrás da escolha, que culmina na censura silenciosa que se alastra nos mesmos meios cibernéticos como resultado da banalização imposta pelos meios de comunicação de massa.
A evidência do "like" é muito mais reveladora de caráter para o outro que uma longa conversa sobre convicções e afetos. É a manifestação de instintos básicos de sobrevivência que mudam de meio, mas permanecem mensagem.
A censura silenciosa da não-consciência, por tanto, é a escolha fundamental da mediocridade quando os meios de comunicação financiados pelo capital banalizam um tema de sua Agenda estendendo suas reflexões às redes sociais, fazendo com que a maior parte deste grupo busque no entretenimento e no consumo, os elos de interlocução e identidade social para amenizar o estresse social, sua tensão nos espaços de conflito. A censura relatada faz por restringir os embates às elites (intelectual e econômica, por vezes antagônicas) e à classe média, que se vislumbra emergente diante da possibilidade de contribuir com a tomada de decisão do topo da pirâmide social baseada no seu poder de compra como uma grande força uniforme, homogênea. O resto é publicidade.
Se o silêncio do outro nos perturbar a paz, então, tenha em mente que sua escolha deliberada pela censura silenciosa da não-consciência buscava contudo, evitar o constrangimento de discordar de você, não por ser superior, mas por não possuir subsídios para sustentar uma conversa que embora ele não desconheça por completo, fora contada a ele por uma única fonte, uma única versão, talvez. Somente talvez...
O dito e o não
Nas sombras de um dia
Aos olhos de um outro,
Arrastam-se os nãos
Enquanto gira uma vida.
Afogam-se as alegrias
E tudo o que se haja feito
Torna-se por hábito
O que não tem sentido
O que não faz amigo
O que não tem retrato
O que se põe sozinho
O infeliz desabafo
Das escadas o desafio
O raiar de sol que aguardo
O abraço nunca sofrido
Distante, a um braço
Daquilo que quero comigo
Do que a vida tem por destino
No papel só um traço
Que danço chorando e sorrindo
Mas que bebo em ardor o bagaço
Cedo ou tarde, vindo ou partindo
Rasgo do peito dorido
A felicidade arregaço.
Aos olhos de um outro,
Arrastam-se os nãos
Enquanto gira uma vida.
Afogam-se as alegrias
E tudo o que se haja feito
Torna-se por hábito
O que não tem sentido
O que não faz amigo
O que não tem retrato
O que se põe sozinho
O infeliz desabafo
Das escadas o desafio
O raiar de sol que aguardo
O abraço nunca sofrido
Distante, a um braço
Daquilo que quero comigo
Do que a vida tem por destino
No papel só um traço
Que danço chorando e sorrindo
Mas que bebo em ardor o bagaço
Cedo ou tarde, vindo ou partindo
Rasgo do peito dorido
A felicidade arregaço.
16 de fev. de 2016
Eu, a Razão e o Tempo
E o tempo?
Ele nos espreita sem pudor
Não se detém.
Não se finda, não muda... nada.
E o tempo?
Lamenta.
Porque somente quem vive
Tem a dádiva de passar.
Ele nos espreita sem pudor
Não se detém.
Não se finda, não muda... nada.
E o tempo?
Lamenta.
Porque somente quem vive
Tem a dádiva de passar.
24 de ago. de 2015
Um tango para Alice
(Sinopse cantada)
Quando os corpos se encontram, se mexem e balançam
Se atiram no espaço, rodopiam, se encantam
Quando vertem suores, calores, olhares
E se nesses encontros teu corpo o sentido encontrares
Fazendo do espaço sua extensão, seu abrigo
Um palco, um chão, um passo, outros dois contigo
Não importa se aos pares, embriagados, tristes, inibidos
Se pássaros, borboletas, golfinhos, sê bichos
Na expressão mais antiga do amor, da aversão e da guerra
Abriga-se no homem, no intimo, no seio da terra
A dança, há uma dança por vez
No um, no dois, no compasso, nos três
Jorge, Henrique, Alice
Dança comigo um tango outra vez!
Quando os corpos se encontram, se mexem e balançam
Se atiram no espaço, rodopiam, se encantam
Quando vertem suores, calores, olhares
E se nesses encontros teu corpo o sentido encontrares
Fazendo do espaço sua extensão, seu abrigo
Um palco, um chão, um passo, outros dois contigo
Não importa se aos pares, embriagados, tristes, inibidos
Se pássaros, borboletas, golfinhos, sê bichos
Na expressão mais antiga do amor, da aversão e da guerra
Abriga-se no homem, no intimo, no seio da terra
A dança, há uma dança por vez
No um, no dois, no compasso, nos três
Jorge, Henrique, Alice
Dança comigo um tango outra vez!
6 de ago. de 2015
Desligado
Sabe o que o cansava? Saber que a vida havia se transformado numa grande vitrine do vazio. Observava aqueles rapazes se exibindo na tela do computador de seu neto, sem entender quais "gatinhas" eles queriam conquistar daquela forma. Dizia que a liberdade dos tempos modernos era outra, muito maior e melhor que a de seu tempo. Mas que se o que aqueles moços queriam conquistar eram "gatinhos" ou o seu neto, ele, no lugar de qualquer um deles, não haveria de se interessar. Porque o que homens e mulheres querem está enraizado no fundo da alma, refletido nas curvas sinuosas do cérebro. Dito e não dito por palavras que se ouvem ou escondem de nós. Desenhado no olhar, em nossas digitais. Respirava fundo, ele, cuja cabeça havia sofrido de um upgrade inesperado, palavra que sequer saberia pronunciar. Morreu de desgosto aos 80 anos por constatar que a vida se tornou chata, sem gosto... Porque hambúrgueres não o alimentavam, roupas caras não lhe enchiam os olhos, porque não tinha mais com quem dividir as coisas importantes da vida já que nenhuma delas recebia preço e tinha seu valor atual negado. Morreu assim... de graça e a custo zero. Ao seu enterro, só os chegados compareceram. Mas a notinha de jornal ao longo de uma semana recebera mais de 1k de "likes" de desconhecidos que o dedicaram palavras pomposas em seus comentários, belas expressões da língua que nunca chegariam até ele, já que a tecnologia os privou do contato. Já que soavam ridículas demais para sua alma velha e cansada exibir como lembrança do que nunca viveu.
8 de jun. de 2015
A arte entre Jesus e o Coelho
Quando nos deparamos com uma imagem como esta, pelo menos para aqueles com maior sensibilidade e empatia, nos sentimos desconfortáveis. A águia, um predador extremamente adaptado, voa livremente com altivez inquestionável. Envergadura adequada. Aerodinâmica... Mergulho perfeito. Garras afiadas e longas que penetram a carne da presa com facilidade. Bico resistente que golpeia certeiro. Pronto. O coelho está morto. Seu sangue passa a tingir, pouco a pouco, a pelagem que o adornava. Mas nem mesmo uma imagem como esta está livre de uma outra interpretação. A vida da águia. Fosse a águia um ser herbívoro, comeria plantas, mas não se trata disso. O que devemos nos questionar é por que não prestamos a devida atenção à vida da águia? Por que preferimos ver a morte do coelho? Talvez porque o coelho seja a caça. Porque ele passe a ideia de "indefeso"... Mais que isso! Porque a vida da águia depende de sua morte. Isso é cruel.
Estranho seria não fazer a mesma análise dura com a foto viralizada nas redes sociais em que uma mulher, travestida de Jesus, posou crucificada em plena Parada do Orgulho LGBT. Esta imagem tem, no mínimo, duas facetas, a dos que ofendem e dos ofendidos. Quão maior ironia não é ter de considerar uma "ofensa" que se relacione ao ícone do Cristianismo, pregador máximo do amor ao próximo. Mas é uma argumentação possível.
Sem conseguir fugir da "boa e velha" dicotomia, de um lado, religiosos - e não apenas fanáticos - irão ver na imagem uma ofensa grave, como se imbuído pelo rancor, o movimento LGBT fosse algoz, pagando com a mesma moeda que fora pago ao longo da história. Do outro, o Movimento expressando que sempre estivera na posição ocupada por Jesus quando do martírio, tanto quanto as mulheres, e por isso, ofendidos em uma sociedade que os julga e crucifica a todo instante.
Mas até aonde vai ou pode ir a arte? Onde está seu espaço? Penso, que, desde que a arte busque expressar pelo sentido e pelo significado, pelo subtexto, pelo contexto, deve o homem se colocar em um lugar de reflexão e não de vitimização diante do simulacro. Afinal, estamos falando de um opressor histórico. As igrejas cumpriram seu papel ao longo da história como mecanismo ferrenho de cerceamento de liberdades, quaisquer uma delas, e hoje, buscam se remodelar, não a toa. Se cada um dos fiéis seguidores do Cristo, como dizem ser, pensasse como ele, a ressonância de uma expressão artística dessas não teria qualquer conotação ruim. Ao contrário.
A incompreensão dos que veem somente a morte do coelho será a mesma dos que veem maldade na mulher travestida de Jesus na "Parada Gay". Mas ignorar a vida da águia seria o mesmo que ignorar as injustiças que temos imposto às minorias em nosso país (pelo menos).
3 de mai. de 2015
Sons e Cores
Batiam lhe as ondas de um mar revolto
Castigando em mares de sal e esgoto
As costas amargas de praias assim,
Donde nadam golfinhos, gente, tartarugas
Num tempo em que o próprio tempo exibe suas rugas
De uma vastidão ímpar sem fim
Até que a tarde findasse em festas de luzes
As horas em frestas pintando o mar em cardumes
De cores, canções, lixo e viveiros humanos
Ou até quem sabe, meu olhos, as vistas se turvem
Pelos grãos de areia, o verde, nas nuvens
Guarda sois, latões, amores, paixões e enganos.
Na sonora e tardia harmonia
A voz de que mais me valia
Surgia do esforço de dias assim
Coloridas de mares, céus e sorrisos
Do fundo, daquilo que mais preciso
O tudo que em minha volta foi feito pra mim.
Castigando em mares de sal e esgoto
As costas amargas de praias assim,
Donde nadam golfinhos, gente, tartarugas
Num tempo em que o próprio tempo exibe suas rugas
De uma vastidão ímpar sem fim
As horas em frestas pintando o mar em cardumes
De cores, canções, lixo e viveiros humanos
Ou até quem sabe, meu olhos, as vistas se turvem
Pelos grãos de areia, o verde, nas nuvens
Guarda sois, latões, amores, paixões e enganos.
A voz de que mais me valia
Surgia do esforço de dias assim
Coloridas de mares, céus e sorrisos
Do fundo, daquilo que mais preciso
O tudo que em minha volta foi feito pra mim.
27 de abr. de 2015
Nota de empenho
Sem dor, sem medo
No seio da vida, na poeira
Carrega o homem um segredo
dos que calam, inaudíveis
a ouvidos sensíveis
Sem espaço, sem zelo
no girar das horas
Por dias inquietantes
passa o homem adiante
suas verdades quase tortas.
Sem tempo de se-lo
Adormece por fim no escuro
por não saber ceder,
não saber amar,
não ter cuidado,
Onde não precisa pedir,
não precisa guardar,
não é arriscado.
Pode ser bicho, ser fera
ter qualquer segredo enfadonho
Que noutro lugar, ao seu lado
ou no fundo da alma
onde reinam fantasmas
nem secretamente
ele será cobrado.
No seio da vida, na poeira
Carrega o homem um segredo
dos que calam, inaudíveis
a ouvidos sensíveis
Sem espaço, sem zelo
no girar das horas
Por dias inquietantes
passa o homem adiante
suas verdades quase tortas.
Sem tempo de se-lo
Adormece por fim no escuro
por não saber ceder,
não saber amar,
não ter cuidado,
Onde não precisa pedir,
não precisa guardar,
não é arriscado.
Pode ser bicho, ser fera
ter qualquer segredo enfadonho
Que noutro lugar, ao seu lado
ou no fundo da alma
onde reinam fantasmas
nem secretamente
ele será cobrado.
13 de abr. de 2015
Saudadezinha
Si avuá fôssi tarefa minha
nem brilho d'esterlinha ieu inha invejá
Purque si cortava as núvi
Das árvri as copa, os cume
paricendo uns vagalume ieu inha praná
Pr'alumiá as foresta,
Nas frozinha umas cesta tirá
o hoje qui só é festa, de canção e seresta
e o qui mi resta, é qui vo mi acabá!
nem brilho d'esterlinha ieu inha invejá
Purque si cortava as núvi
Das árvri as copa, os cume
paricendo uns vagalume ieu inha praná
Pr'alumiá as foresta,
Nas frozinha umas cesta tirá
o hoje qui só é festa, de canção e seresta
e o qui mi resta, é qui vo mi acabá!
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