Preso nas paredes da alma
está o gérmem da vida
o sopro de estrela que habita
em cada um de nós
Andarilho entre os desejos
percorre os muitos desertos
em busca de direção,
por espaço, por voz.
Sem sentir, nos domina
Outras cores assume
Pelas dores perdura
sua graça é veloz
Pois que é amor
quando o tom muda
e suas paragens disfarçam
a paixão, seu algoz
Retornará verde ao mais íntimo
Devagar, e por vagar somente
Qualquer ninho que esquente
O passado de minha mente atroz.
Dedico este texto à Ana Sarandy que com sua adoração pelas coisas que escrevo, as motiva, renova e desperta. Felicidades e muito amor, sempre!
16 de jul. de 2013
18 de jun. de 2013
Ilegal, imoral ou engorda?
O dia amanheceu estranho. Chovia, mas o ar era seco, e apesar da
temperatura baixa, o vento estava quente. Um início de dia atípico para uma
típica segunda-feira de trabalho.
Semana passada, o Rio de Janeiro, ou
melhor, diversas capitais do Brasil, passaram por um momento misterioso. Eu
ainda não ouso chama-lo de tomada de consciência, porque até então, nada estava
muito claro.
Duas moedas de dez centavos. Esta era a
jogada inicial. E na mesa de apostas o valor subiu rapidamente para quatro. A
ida e a volta do transporte público ficaram mais caras alguns vinténs. A
matemática é básica. O governo subsidiou por anos o preço da passagem, em algum
momento ela iria aumentar. Mas parece que o fundamental nunca foi o nosso
forte. Faltou arroz, feijão, fubá, ovo, tudo muito fundamental, além de
hospitais e ensino de qualidade. E algo começou a me atormentar. É pouca aposta
pra muita rodada. Então, subiram os valores e mais jogadores se apresentaram à
mesa. Suspense sim, mas nenhum blefe. Era o Rio de Janeiro indo às ruas, mas
protestar por sei lá o quê. "Não é pelo preço das passagens", eles
diziam. Era pelo quê, então? Não soube dizer. E naquele minuto em que escutava
Roberto Carlos dizer-me ao ouvido que "há muito me perdi entre mil
filosofias, virei homem calado e até desconfiado, procuro andar direito e ter os
pés no chão, mas certas coisas sempre me chamam atenção" olhei pela janela
do ônibus, e lá estava escrito numa pilastra "gentileza gera
gentileza."
Qual é nosso estado de coisas? Gosto da
expressão. Ela nos pede resoluta para pensar. E a grande e única revolução
possível é a do pensamento, em cujas armas vorazes - tinta, papel e palavra -
confiamos o protagonismo de nossa história, quando individualmente desistimos
do consumo deliberado e irrefreável, quando destruímos o "sempre foi
assim", ou não repetimos o "eu estou pagando". Onde estávamos
nós na história? O que somos agora?
E lá pelas tantas da tarde, quando os
pensamentos já haviam voado para além do consciente, atravessei a Avenida Rio
Branco esquina com a Avenida Presidente. Era um mar de gente. Muito mais do que
poderia esperar. E gentilmente, havia polícia por lá. Eles riam, diziam
"quero só ver quem é que vai reclamar quando tirarmos os 'cracudos' das
ruas". A pergunta ressoou forte e pesada. Não somos conhecidos pela
empatia social, a zona sul que o diga. Mas as camisas brancas eram
emblemáticas. Pensei, agora sem versos, que metade daqueles jovens eram apenas
entusiastas, menti. Temi quando tremularam bandeiras oportunistas de uma
política que mancha nossa trajetória com um analfabetismo grave, diria Brecht.
E tive sim, alguma esperança, quando compreendi que muitos que ali estavam
"não me representam". Que a pluralidade das reivindicações demonstram
o quanto insatisfeitos estamos. Seja com o calçamento de Copacabana, ou com Tia
Maria da limpeza e seu salário de pobre. Pouco importava. Era o homem, seu lobo
e seu cordeiro.
Por tudo isso não fui às ruas. Senti-me
burro, até insensível. Mas, sobretudo, honesto. Não quis me indispor. Minhas
armas são outras. Eu as empunho agora. Poucos dirão que do meu quarto, nesta
tela de computador é mais fácil. Alguns irão elogiar a disposição das ideias, e
muitos não lerão. O que importa, contudo é que minha voz está aqui, sem
partido, sem mal entendido ou ponto e vírgula. Está nua e molhada, quebrando
barreiras, seguindo viva, renascendo. Foda-se. O que importa é o que escrevo
para o amanhã de muitos, pensado por poucos, quantas vezes preciso for, sem
telegrama, cassetete ou fogo.
16 de jun. de 2013
Eu acredito em virar a página.
O certo, é que nossa história é a
simples síntese das nossas decisões e posicionamentos, e, é claro, suas
consequências diretas e indiretas. É o resultado da equação indivíduo-tempo. E
como nada há de ser eterno neste estado de coisas, a equação sofre com as
variáveis que a compõe ao longo da jornada.
A pieguice do tema, no entanto,
não está na concepção da autoajuda, está na reedição, na recorrência, na
necessidade de se pensar o óbvio mais uma vez. A pieguice está onde falta bom
senso, onde sobram frases feitas. E é nos braços da obviedade, quando nos falta
o bom senso, que reinventamos o conceito do virar a página.
Do simples esquecimento ressentido
para a lembrança politicamente correta. Virar a página é reflexo do desapego
que praticamos ao identificarmos o que nos desrespeita, aquilo que nos incomoda
como indivíduos. Nunca foi tão difícil dizer não. Puro, simples. Um não
transforma. Muitos nãos transformaram a história. Por que não a nossa? Porque
tememos a reação que ele causa. Porque estamos intolerantes, hipócritas e
dementes daquilo que o mundo deveria ser. Diante de tantas crises, indispor-se
com as opiniões divergentes que encontramos no convívio social parece tão
pequeno que nem nos damos conta de que somos, na dimensão micro, o efeito real
desses impactos maiores. É a omissão de hoje, tal qual a bolinha de papel que
entope o sistema de dragagem quando acumulada às demais, que resulta na
vertigem coletiva que sentimos e fingimos não ver. Nos idiotizamos porque é
mais bonito. É mais fácil. Então, justificando a Era do gostar de tudo, perseguindo
o ideal do cidadão de bem, vemos a crescente resistência ao respeito, porque
vivemos a falácia do Procon generalizado. O "eu te processo" no
desconforto diário é a crítica ao politicamente incorreto às avessas da opinião
verdadeira. A intolerância é a autoafirmação da mesquinhez humana quando,
sufocado, o egoísmo se liberta.
Por tanto, virar a página é
absolutamente recomendável, natural e salutar. A lembrança é a triagem inicial
da memória. Merece ser armazenado, o que, dentro de seu valor arbitrário, tem
importância nas páginas de sua história. Uma vez que o conteúdo não atenda aos
requisitos da felicidade, da superação ou de qualquer outro valor ou objetivo
que lhe sirva de condutor, deve ser ignorado e plenamente esquecido. Mas o
processo é maior do que se compreende. É preciso destruir qualquer alternativa
de retorno, e isto significa coragem para enfrentá-lo. Porque se as decisões
que tomamos são de nossa responsabilidade, não será o tempo que se
responsabilizará por elas, muito menos a vida. O que nos falta é a coragem e o
discernimento para executar de uma vez os fantasmas que ocupam espaços
preciosos na memória. Sem perceber, tornam-se lembranças indesejadas, feridas
abertas que florescem sem aviso prévio.
Vire você também as suas páginas.
Nosso objetivo principal é a felicidade independente de como a concebemos, e
esta só será possível ser plantada na terra fértil da mente, quando arrancarmos
de lá as ervas daninhas que impedem seu crescimento.
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